Postado por: Rubens Lucas terça-feira, setembro 27


Antes de tudo, obrigada! Queria poder responder a cada mensagem que recebi via Twitter e Facebook. Claro, como repórter, fico feliz com os elogios, mas agradeço, sobretudo, por terem assistido. Agradeço a quem já passou o link da reportagem adiante para que mais e mais pessoas possam se sensibilizar com o sofrimento dos homens e mulheres de Potosí.
Escrevo pra agradecer e também pra dividir com vocês um pouco dos bastidores dessa reportagem. Como vocês vão ver pelas fotos, o  Markus Bruno, que fez a captação das imagens, quebrou o dedo da mão direita logo no primeiro dia de gravação na montanha, numa queda nas pedras, do lado de fora.
Com ajuda do produtor Gustavo Costa, recolocou o osso no lugar ali mesmo. Improvisamos um curativo com o que tínhamos de algodão e fitas e seguimos a gravação pelo dia inteiro. Só à noite ele pode ir ao hospital engessar a mão.
Nesse dia, estávamos gravando com as pallires, as mulheres que quebram pedregulhos uma vida inteira pra ter como botar comida na mesa. E imaginem, se a gravação começou assim... sabíamos que haveria dificuldades e emoções ainda mais intensas pelo restante dos dias.
Comecei a me emocionar com as histórias ali, falando com aquelas mulheres. Como achar concebível que uma velhinha de 81 anos esteja encurvada em cima de um monte de pedras catando migalhas de prata? Os absurdos de Potosí começaram a me chocar naqueles primeiros instantes.

Entramos na mina depois de três dias em Potosí. Era necessário nos adaptarmos a altitude elevada, encontrar um guia e preparar a pequena carga que levaríamos pra dentro da mina. Além dos nossos equipamentos, levamos alguns presentes para os mineiros.
Eles passam o dia inteiro sem água ou comida. Uma garrafa de suco, água ou um par de luvas pra aliviar um pouco a dureza daquela rotina são tesouros dentro daquela montanha. Quando nos avistavam, alguns mineiros já logo perguntavam se tínhamos algo pra beber.
Entramos nas minas apreensivos, claro. Mas tínhamos que chegar aos lugares mais difíceis. Viajamos pra isso - pra mostrar o inferno onde aqueles homem vão se matando aos poucos. Os túneis escuros e estreitos são aflitivos.
Mas pior é quando a gente chega no final deles, às galerias porque, então você sente aquele calor imenso, dificuldade pra respirar e pensa que pra sair dali, tem que fazer o caminho todo de novo. A solução é não pensar. Então, quando entrávamos, eu me concentrava no trabalho de tal maneira que não pensava na possibilidade de um acidente, de algo dar errado.
Foi assim naquela galeria onde a temperatura chega aos 40 graus. Ficar ali dentro é terrível. Depois de duas horas e meia na mina, saímos suados, exaustos. Eles aguentam nove, dez horas dia após dia. A estratégia de só pensar no trabalho, nas histórias que ouvia deu certo até a última entrada na montanha.

Deixar essa gravação por último não foi uma estratégia, foi uma coincidência. Só no último dia de gravação, haveria explosão ma mina onde o Pablo trabalha, o mineiro que já estávamos acompanhando há alguns dias. Já sabíamos as dificuldades do caminho, já tínhamos entrado ali dois dias antes. Mas eu não poderia dimensionar o tamanho do nervosismo que tomaria conta de mim.
Não tenho problema com lugares fechados. Mas tenho problemas com lugares barulhentos demais. E estar ali dentro, durante a perfuração, é infernal. O barulho da máquina enche o espaço de  tal modo que acelera o coração, bate um desespero. Só de ouvir aquele barulho, já dá uma sensação que a montanha inteira vai desabar. A poeira é terrível. Mesmo assim, apenas com uma máscara branca no rosto, o cinegrafista Markus Bruno foi até o paredão pra registrar de perto as perfurações.
Pra conseguir chegar onde ele estava, subi três vezes e desci. Quando eu chegava no paredão onde os mineiros estavam perfurando, me faltava ar, a poeira parecia que iria me asfixiar. Só depois da terceira tentativa, consegui falar. E falar o quê? Exatamente o que me veio na cabeça.
Naquele momento, não existia mais a repórter que pensa no texto,  que escreve o que vai dizer. Não. Quando eu disse que estávamos ali, que nos arriscamos para mostrar o absurdo que acontece dentro daquela montanha... era a única coisa que eu poderia dizer naquele momento.
Nas imagens, eu desço correndo, mandando todo mundo descer. Os mineiros gritavam, carregando os canos e a máquina, mandavam descer e eu não conseguia entender o que eles diziam de tanto barulho.
Eles estavam agitados. Nós também. Só então descobri que eles tinham pressa pra fazer o maior número possível de buracos para colocar as dinamites. O ar comprimido e a água que fazem a máquina funcionar custam US$ 10 por hora. Eles não têm dinheiro nem tempo a perder.


Depois de uma hora daquele barulho horrível, o silêncio volta. Mas não a paz. Estou de frente para um dos filhos do Pablo que com uma faca vai cortando uma a uma, as dinamites. Me acalmo um pouco, parece que a situação é mais tranquila. E ele diz:  "Esse é o momento mais perigoso. Uma faísca e vai tudo pelos ares". E o coração volta a disparar.
O Pablo vê a minha cara de susto e diz que o filho, Walter, é experiente. Ele trabalha minuciosamente, preparando as bombas. Sabíamos que o momento de acender os pavios se aproximava e que teríamos que achar um abrigo. Fizemos tudo exatamente como os mineiros fazem. Descemos cerca de 100 metros até uma toca dentro da montanha onde eles se refugiam.
Quando vi o buraco onde tínhamos que ficar sentados em grupo... foi o momento de maior pânico. O buraco, claro, já parecia uma cova perfeita. Só então descobri que naquele dia, pra nos proteger, sem que tivéssemos pedido, eles preparam uma primeira explosão com apenas oito dinamites. Normalmente explodem 40, 50 bisnagas de uma vez.
Fiquei grata pela preocupação que eles tiveram conosco. Mas isso não foi o suficiente pra me acalmar. Eles, sim, estavam tranquilos. "O que são oito tiros?" - diziam e riam de mim. Quando os estrondos começaram, ouvir aquela explosão rouca dentro da montanha, sentir a vibração das pedras... só te faz pensar... eu quero que acabe, tem que acabar bem.
Na sétima, eles disseram que havia terminado. Mas não, eu estava contando uma a uma e ainda faltava a última. A oitava... veio entre os risos dos mineiros com o meu pânico e as minhas lágrimas de alívio. Mas era mais que isso, era pânico, alívio, angústia. A repórter não tinha nada programado pra dizer. Tinha que olhar pra câmera e falar o quê?
Falei apenas o que eu sentia. Na hora da edição, cheguei a ter dúvidas se o choro deveria ir ao ar... Fui convencida de que era natural mostrar minha reação. Chorei de medo, sim. Mas chorei de angústia de pensar que o horror de estar debaixo de toneladas de pedras, com explosões descontroladas acontecendo dentro da montanha, havia acabado pra mim. Não pra eles.

Chorei por não ter o poder de pegar pelas mãos cada um daqueles homens e tirá-los dali de dentro. A minha vontade de sair daquele mundo claustrofóbico era tão grande que deixá-los pra trás doeu demais. Quando terminou, nós não podíamos voltar até o paredão pra mostrar o resultado. As explosões podem liberar gases letais. Os mineiros ficaram no refúgio... iriam descansar por algumas horas pra voltar ao local e começar a carregar pedras.
Nós tínhamos o caminho de volta. Ao sair pela última vez da montanha, ao enxergar a luz no fim do túnel você entende exatamente o que isso significa. Ter ou não ter a tal luz no fim do túnel. Eles ainda não têm. Nós caminhamos em silêncio. O Pablo nos acompanhou até o lado de fora, exausto. As câmeras já estavam desligadas. Já tínhamos gravado tudo que precisávamos. Vou guardar pra sempre o olhar daquele homem ao se despedir, agradecendo nosso trabalho.
Um dia, voltarei a Potosí pra fazer mais do que uma simples reportagem. Pra tentar levar algum tipo de ajuda. Por isso, agradeço por terem assistido. Quem sabe alguém com poder de ajudar assista, escute a voz daqueles mineiros invisíveis e encontre um caminho.   Me coloco à disposição, me jogo de corpo e alma em qualquer projeto que possa oferecer alguma esperança, alguma outra possibilidade aos homens e mulheres de Potosí que tanto me emocionaram.

Adriana Araújo, Jornalista Rede Record 
blog pessoal: Entre Nós
Assista a reportagem:


Ps.: Resolvi compartilhar aqui este post, pela importância de reconhecer e valorizar um grande trabalho no meio jornalístico (uma vez que neste meio, infelizmente, existe uma verdadeira guerra de interesses e muitas matérias tendenciosas). E principalmente, pelo exemplo deixado pela própria jornalista que tem demonstrado neste trabalho e em outros, uma preocupação com próximo, na maioria das vezes, pessoas esquecidas pela justiça, pelo estado, pelo mundo.

"Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo." (Mt 22. 37-39)











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